Poesias de 1 a 99

Poema #03: Isso basta

A cama desarrumada.
O livro (quase) aberto.
Páginas escurecidas.

A caneta largada no meio.

No relógio um horário impróprio; “já é dia?”
Sob os travesseiros, um único pijama

não se sabe porquê; não se sabe para quem.
Clareou.
As plantas espreguiçam-se:
um girassol retorce lentamente
pétalas, amarelas, miolo, marrom
em direção à promessa
De sol
De luz
De felicidade com prazo de validade
Vencida

De repente
Dois passos contrabalanceiam o peso de um único corpo
Um, dois, três, um dois, três… gira!
Girassol rodopia, entre as mãos agitadas
Madrugada infinita
Há barulho – feliz idades
Há sussurros – ocas gargalhadas expressivas

A cama desarrumada.
O livro (quase) aberto.
Páginas manuscritas.

Um mercado; um abridor de latas. Um saca-rolhas.
Nômade, sem ser, sendo.
Desiste-se; retorna.
Pacote 2×1.
Repensa.

Compras todas amarelas:
Banana.
Limão siciliano.
Milho.
Angu.
Girassol e gelosia…

Alba dal balcone
Água de coco, rega da vida
Eis o vento acalmando as turbinas
Eu te amo
Eu também.

O lado esquerdo da cama.
Criado mudo.
Coração.
Uma pera.
Mordida pera.
Religiosa pera.
Compartilhada à distância.

A cama desarrumada.
O livro desaberto.
Páginas escritas.

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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